Rachel Poubel

Por Rachel Poubel

Bacharel em Direito, Administradora, Terapeuta para Mulheres, Hipnoterapeuta e Organizadora do Movimento Mulher de Identidade. INSTAGRAM: @rachel_poubel

Por Rachel Poubel

Bacharel em Direito, Administradora, Terapeuta para Mulheres, Hipnoterapeuta e Organizadora do Movimento Mulher de Identidade. INSTAGRAM: @rachel_poubel

A voz mulher precisa ser ouvida

Por muitos anos, a mulher não teve sua voz respeitada. A ela não era dado o direito de se expressar, a autonomia de pensar, a chance de se posicionar, nem mesmo a ousadia de questionar. A história evidencia problemas gravíssimos decorrentes desse contexto, desde mulheres perseguidas por tentarem quebrar essa prisão, ou até mesmo assassinadas por não abcederem a tais regras sociais.

Até nas leis, a mulher por tempos foi subjugada. Não tinha poder de voto, nem direito que superasse uma vontade do marido. Diante disso, a força da palavra masculina sobre a mulher era não somente aceita na sociedade, mas também legitimada por políticos, juízes e até religiosos.

Trouxe tudo isso para lembrar que, hoje, apesar de ainda haver muito contexto machista e ameaçador, a mulher tem o direito de falar e de ser ouvida. Isso é importante ser reforçado, porque nem sempre as próprias mulheres se lembram de como essa luta foi dura para se chegar até aqui.

Talvez por costume, no meio de uma sociedade ainda tão massacrante, muitas mulheres reconhecem seu direito de falar, mas não tem a prática dessa atitude. São casos diários que se escondem por trás de mentiras, disfarces ou simplesmente mudez voluntária, quando deveria gritar sua posição.

Quanto é violentada em casa, muitas sequer vão à delegacia. Se vão à delegacia num ímpeto de justiça, muitas inventam que caíram da escada quando são questionadas pela autoridade. Se são assediadas na rua ou no trabalho, muitas preferem se calar a perder o emprego ou chamar atenção demais numa confusão. Se são rebaixadas em qualquer outro ambiente, muitas chegam a dizer que isso é normal e que precisam se esforçar mais.

E assim, muitas vão normalizando esse “cala a boca” que há tantos anos mulheres lutam para extinguir. Se passam a achar tudo isso normal, passam também a não falar quando algo lhe incomoda, a não se expressar quando não concordam, a aceitar quando lhe impõem algo, a admitir que merecem estar abaixo. Não, isso não pode mais acontecer.

São nas pequenas atitudes do dia a dia que você acostuma sua vida inteira. Então, se você aceita se calar em pequenos episódios, não criará resistência quando sua identidade lhe for arrancada e seus sonhos apagados.

Mulher, exerça seu papel de cidadã com voz ativa. Hoje, você tem direitos que toda a sociedade deve respeitar. Essa mudança de mentalidade começa com suas pequenas ações, seja falando quando discordar de um colega de trabalho, professor, chefe ou marido; seja colocando sua posição quando perceber que estão diminuindo sua visibilidade, voz e pensamento.

Fale, porque ficamos muitos anos sem a liberdade de falar. Expresse-se, porque muitas antes nós lutaram para que hoje isso fosse possível. Posicione-se, porque você também criará um mundo ainda melhor para quem virá. Mas nunca, nunca mais, cale-se só porque foi criada assim, porque tem medo de ser diferente ou porque está em um meio masculino. Sua voz é hoje um de seus grandes poderes. Exerça-o.

Rachel Poubel
Terapeuta para Mulheres, organizadora do Coletivo Mulheres de Identidade, 

Intimidade demais é saudável ou tem limites no desrespeito?



Você lembra quando conheceu seu marido? Aposto que o achou interessante, cheiroso, sedutor... várias qualidades. Talvez pensou: como ele se veste bem. Ou então imaginou como ele faz para ser tão atraente assim. Imagino que ele também tenha pensado a mesma coisa na época, vendo-lhe tão sensual, uma mulher bonita, que se veste bem, com um cheiro inebriante…

Acontece que veio a tal da rotina, tão temida que estraga muitos dos casamentos. Na verdade, é que com o passar dos dias, meses, anos a rotina trouxe consigo o excesso de intimidade para o casal que pode ser uma verdadeira armadilha para o próprio casamento.

A sensação de que tudo pode e de que não tem mais nada para descobrir vai chegando aos poucos, minando a individualidade e causando o desinteresse. Isso é perigoso porque faz o casal abrir mão de alguns cuidados.

Quando ainda é namoro, o que vemos é aquele cuidado delicado, buscando  agradar em todas as circunstâncias. Nesse cuidado, o casal jamais faz certas atitudes, como, por  exemplo, soltar um pum quando estão juntos, um arroto alto ou comer de qualquer jeito espalhafatoso. De forma alguma. Nesse início, há geralmente o cuidado com o próprio comportamento e uma preocupação em ser agradável.

Com o excesso de intimidade, o casal vai perdendo os limites do respeito. Já não se importa, acha que o homem ou a mulher tem que aguentar aqueles excessos simplesmente por já serem marido e esposa. Matam a arte da conquista. Chegam ao ponto de deixarem até os cuidados físicos de lado.

Raspar a barba para que, se não vai a nenhuma reunião ou festa? Vestir uma roupa bonita para que, se não há qualquer evento especial? Depilar-se? Para que, se não vai à praia? Agradar o cônjuge para que, se hoje em dia parece algo bobo e nem é tão interessante assim.

Esse excesso de intimidade acaba gerando cenas desagradáveis, que realmente fazem um perder o interesse no outro. 
É importante olhar para o outro com interesse de conquista-lo, sempre. E não confundir a intimidade do casal com falta de cuidado, desleixo.

Se você que já é casado ou casada há anos, que tal você olhar para o lado lembrar de como se conheceram? Pensar em como foi o despertar do interesse e como ainda pode ser muito bom? O que acha de refletir os pontos onde vocês se perderam e que podem ser melhorados? E se você fizer algo diferente hoje ou criar uma surpresa como antigamente?

É altamente prazeroso ser tratado sempre como se fosse o início do namoro, com aquele fogo e aquele amor de quem tem medo de perder um bem tão precioso. Fazer um elogio, surpreender com uma mensagem de carinho, ou um beijo apaixonado.

Não deixe o excesso de intimidade atrapalhar o relacionamento. Porque apesar de vocês estarem há anos juntos, essa pessoa que está ao seu lado é aquela mesma do começo. Precisa apenas da sua atenção, do seu cuidado, do mesmo amor que proporcionou que toda essa história começasse e, sobretudo, de respeito, para que os anos não se tornem os maiores vilões do matrimônio.
E se você está pensando que de nada vai adiantar por se cônjuge não faz nada também. Que tal experimentar. Talvez seja o seu primeiro passo o que falta para melhorar seu relacionamento. 

RACHEL POUBEL
Terapeuta para Mulheres, organizadora do Coletivo Mulheres de Identidade, 




‘’Não são apenas 365 dias, é o tempo todo de abusos’’

Essa é uma crítica não apenas ao filme 365 DNI, mas a todos os abusadores e também às mulheres que exaltam positivamente tais práticas, ao invés de combatê-las. O filme já é um sucesso na Netfix, mas deixemos algo muito claro aqui: não é um filme de romance, mas sim um abuso maquiado, antes de qualquer coisa.

Muitas mulheres estão em êxtase pelo filme polonês, com toda sua pegada erótica e até cenas explícitas de sexo. Contudo, a produção cinematográfica é pautada em uma relação doentia e altamente abusiva e criminosa de um homem sobre uma mulher. Não deveríamos nunca ressaltar esse tipo de prática como maravilhosa.

Não, não é perdoável qualquer tipo de crime contra mulher, seja assédio, agressão física, agressão psicológica, estupro, sequestro ou até feminicídio. Sim, é tudo isso que as mulheres acabam celebrando quando não classificam este filme como pavoroso. Todas essas características continuam sendo crimes e devem ser repugnantes a qualquer ser humano.

Romantizar abusos deveria ser uma prática expurgada pelas mulheres, porque já passamos por isso todos os dias. Quando um machista se sente no direito de passar a mão sobre uma mulher de forma criminosa, muitos dizem que é culpa da mulher por sua roupa ou seu jeito de andar. Quando, em uma festa, um homem força um beijo em uma mulher, há quem diga que é assim mesmo, que é uma festa, então deixa para lá. Quando, em uma relação, a mulher diz que não quer sexo, mas o homem a intimida e a força física e psicologicamente a fazer, muitos dizem que a mulher estava errada, porque ela que levou a relação até ali.

A sociedade já imputa culpa demais às mulheres por crimes que a própria mulher sofre. Não precisamos de mais um discurso romanesco vindo de um obsessor.

O pior é que muitas mulheres estão dando esse perdão disfarçado ao criminoso do filme por ele ter aparência de galã de filme ou de modelo da Calvin Klein. Isso escancara mais dois grandes problemas: a falta de sororidade e um absurdo preconceito. Essas mazelas precisam ser destacadas. O ator principal interperta é um gangster musculoso, muito rico, com postura sensual e grande poder, além de atuar com explícitas cenas de sexo durante o filme. E isso vem sendo a justificativa para muitas mulheres se derreterem pelo personagem e perdoarem seus crimes, principalmente crimes sexuais sobre as vítimas. Mas pensemos: se o personagem fosse gordo, baixo ou qualquer outra característica estigmatizada como essas, será que tal perdão seria dado por boa parte mulheres ou ele seria tachado de abusador?

Para piorar, o filme mostra ainda uma evidente Síndrome de Estocolmo quando a vítima, mesmo submetida a intimidação, medo, tensão e até mesmo agressões, desenvolve sentimentos de amor ou amizade pelo seu agressor. Isso mostra mais um grande problema: a interpretação de muita gente de que todo aquele sofrimento foi perdoado pela vítima, então está tudo bem. Não, aquilo não foi perdoado pela vítima, mas sim um estado psicológico particular que precisa de tratamento pós-traumático.

Precisamos ser altamente críticos ao romantizar crimes, não apenas na arte, mas também na vida real. Esses crimes acontecem todos os dias, dentro de casa, no trabalho, na rua. Enquanto não criticamos tudo isso com veemência, esses crimes se tornarão ainda mais normais e justificáveis. Se não criticarmos, será a falência de todas as bandeiras conquistadas pelas mulheres duramente ao longo de anos, um retrocesso e uma lástima para toda a sociedade.

RACHEL POUBEL
Terapeuta para Mulheres, organizadora do Coletivo Mulheres de Identidade, 

Se o seu marido precisa deixar, você é uma prisioneira

Hoje vamos falar sobre o verbo deixar. E isso não é aula de português. Na verdade, esse é um verbo que carrega muito peso. É um verbo que incomoda muito a relação marido e mulher. É uma violência à identidade, em forma de verbo.

Veja se você já não ouviu frases assim: "gostaria de fazer isso, mas meu marido não deixa", ou então, "nossa, seu marido deixa você fazer isso?" Imagina o peso de frases assim quando se observa a identidade da mulher.

Esse verbo é intragável porque, se alguém deixa, é por que alguém pediu. E se alguém pediu, é porque existe ali uma relação de subordinação, não uma relação de companheirismo, parceria e amor. É uma relação em que um é inferior ao outro, em tom e ação de superioridade. Uma verdadeira subordinação.

Essa relação não se encaixa no conceito de casamento, pois o casamento é cumplicidade, companheirismo, liberdade para que os dois optem por ficarem juntos. Quando esse verbo deixar entrar na vida do casal, é porque a mulher está se colocando em uma posição de inferior. Isso destrói sua identidade, com consequências gravíssimas à autoestima e ao amor aos próximos, por não amar a si mesma. 

Até quando a mulher vai ser vista como inferior, que deve obediência ao marido? Isso precisa acabar. Ela sai de uma relação de pai e filha, deixa a casa dos pais para viver sua vida e vem ser subordinada ao marido. Ou seja, uma prisão eterna.

É automático também nos lembrarmos novamente daquela frase, que diz "atrás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher". Outro assassinato de identidade feminina. Há quem ainda grita alto que não é atrás, mas sim ao lado onde está a mulher. Porém, muitas vezes, isso é só no discurso, teoria, pois enquanto esse verbo deixar fizer parte dos casais, as mulheres não estarão ao lado dos maridos. Ficarão sempre atrás, em baixo, mas NUNCA ao lado.
 É pela posição justa, igual, mas não eternamente subordinada, que o significado desse verbo DEIXAR, dentro da relação, precisa ser banido!

RACHEL POUBEL
Terapeuta para Mulheres, organizadora do Coletivo Mulheres de Identidade, 

Sexo: prazer para homens, prisão para mulheres


Deixa eu te fazer uma pergunta: acha que você e seu marido foram educados para o prazer ? Estou perguntando isso porque, na sociedade, o homem é estimulado de uma forma; já a mulher, de outra. Ele é tradicionalmente estimulado a ser o garanhão, o sucesso entre as mulheres, aquele que "pega geral". Já a mulher é estimulada corriqueiramente a se resguardar, a não ter muitos parceiros. Veja que essa percepção é tão aceita na sociedade que qualquer movimento diferente é visto como exceção.

O caso é tão crítico que até a virgindade masculina é desrespeitada. Se o menino já tem 13 ou 14 anos, a pressão social começa a se intensificar, inclusive vindo da família. Já a virgindade feminina é elogiada, destacada como sinal de pureza e exatidão. A consequência danosa desta situação é a falta de autoconhecimento da mulher. Pergunte-se: como esta mulher, educada de forma tão diferente, será feliz e sentirá prazer com o homem com quem casou, que tem uma visão de mundo destoante sobre sexo, corpo e respeito? Como irão transar bem, se um foi feito para ser uma máquina de sedução; enquanto a esposa, um poço de resignação e passividade?

Quanto se instala essa obrigação comportamental na mulher, de renúncia e conformidade, um dos primeiros efeitos é surgirem pensamentos aprisionantes. Veja se já ouviu alguma mulher falar assim: "não posso fazer isso, senão ele vai achar que eu sou uma depravada", "se eu tomar a atitude, eles vão adorar no começo, mas vão dizer que sou mulher fácil e vão me descartar depois". Já ouviu essas frases ou similares?

Nesse momento, é importante entender pontos essenciais sobre sexo. A mulher traz consigo várias imposições históricas. O termo “não pode” é recorrente. "Não pode fazer isso", "não pode falar aquilo", "não pode agir assim", "não pode sair desse jeito"... Mesmo que o homem em questão seja o próprio marido, é com ele com quem a mulher estará, com quem sairá ou para quem se preparará para suduzir, muitas ainda dizem: "não posso! Ele vai pensar o que de mim se eu aparecer assim?".

Muitas mulheres, na hora do sexo, pensam que não podem sequer conduzir o movimento do marido, mostrar onde ela sente prazer, simplesmente pelo medo de ele pensar "ôpa, de onde vem tanta experiência? De onde ela tirou isso?". E, a partir daí, começar a desconfiança.

É neste momento que a mulher se cala e passa a não falar nada sobre sexo, sobre o que ela quer ou o que dará prazer a ela também. Enquanto isso, tradicionalmente, o homem investe para que sua performance seja maravilhosa e altamente prazerosa, mas apenas para ele. Assim, ambos se afastam no momento em que deveriam estar mais juntos.

Essa falta de entendimento na cama pode ocasionar a falta de prazer. O sexo pode até acontecer, mas é um sexo sem prazer, sem boa memória afetiva. E daqueles que a mulher praticamente apenas espera que acabe logo, para satisfazer o homem e ele deixá-la em paz.

Mulher, tenha a consciência de que essa falta de diálogo só lhe fará cada vez mais infeliz. Chame seu marido e inicie uma conversa séria, mas sem brigar. Se acredita que não consegue, busque um profissional, alguém para orientar. O que não pode é deixar o sexo se tornar unilateral. O prazer tem que ser mútuo. Tome uma atitude, nem que seja de pedir ajuda. Porque, se vocês não resolverem isso, o casamento pode se tornar uma bomba relógio, pronta para se destruir.

RACHEL POUBEL
Terapeuta para Mulheres, organizadora do Coletivo Mulheres de Identidade
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