216 13/09/2020 às 12:12 - última atualização 20/09/2020 às 14:06

Coluna: Sodré | “Aos 58 anos de idade, que me desafiam constantemente a pensar e repensar minhas escolhas.”

Por Joacles Costa

Redação Em Dia ES

A história e a historiografia demonstram, com seus inúmeros exemplos antigos e atuais de ignorância, intolerância, ganância e obtusidade, como a arte (e as ciências), em suas diversas expressões ...
Sodré Aos 58 anos de idade, que me desafiam constantemente a pensar e repensar minhas escolhas
O escritor Paulo Roberto Sodré é Professor da UFES – Universidade Federal do Espírito Santo. Nascido na capital capixaba de Vitória (1962), Paulo Sodré é Professor Associado de Literatura Portuguesa na Ufes, onde ingressou por concurso público de provas e títulos em 1989.

Realizou o Mestrado (1997) e o Doutorado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo, com estágio sanduíche na Universidade de Lisboa (2003) e desenvolveu o estágio de pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (2008). Atua na área de Letras, com ênfase na Literatura Portuguesa e no humor literário em língua portuguesa.
 
Acompanhe abaixo a entrevista com escritor Paulo Roberto Sodré:

Joacles Costa: Quais são as suas publicações?
Paulo Sodré: Como autor de ficção, comecei com Interiores, poemas (1984), depois vieram Ominho, poema em prosa para crianças (1986); Lhecídio: gravuras de sherazade na penúltima noite, poema romanceado ou romance-poema (prêmio Ufes, 1989); Dos olhos, das mãos, dos dentes, poemas (prêmio Departamento Estadual de Cultura, 1992); De Ulisses a Telêmacos e outras epístolas, poemas (1998); Senhor Branco ou o indesejado das gentes, poemas (prêmio Secult, 2006); Poemas de pó, poalha e poeira (prêmio Secult, 2009); Guido, a folha e o capim, narrativa para crianças (prêmio Secult, 2010); Poemas desconcertantes seguidos de Senhor Branco ou o indesejado das gentes (2012); Poemas desconcertantes (e-book, 2017) e Uma leitura na chuva (prêmio Secult, 2019). Além de ficção, publiquei artigos e capítulos de livros sobre literatura medieval peninsular, literatura brasileira, em especial a produzida no Espírito Santo, e, sobretudo, ensaios críticos sobre literatura galego-portuguesa: Um trovador na berlinda: as cantigas de amigo de Nuno Fernandes Torneol (1998); Cantigas de madre galego-portuguesas: estudo de géneros das cantigas líricas (tradução galega, 2008) e O riso no jogo e o jogo no riso na sátira galego-portuguesa (2010).

Joacles Costa: Quais caminhos (estéticos, etc.) estima interessantes para a literatura, na sua comunicação com a sociedade nos dias de hoje?
Paulo Sodré: Desde as primeiras publicações, particularmente a partir da edição de Dos olhos, das mãos, dos dentes, de 1992, dois nortes vêm me guiando na produção de textos literários: a preocupação com a linguagem, sem a qual não se faz literatura, e com o tema da homoafetividade, alvo constante de polêmicas e violência moral e/ou física. Nesse sentido, tenho procurado conciliar o investimento nos recursos poéticos (imagens, metáforas, assonâncias, estrofação diversificada etc.) com a sensibilização do(a)s leitore(a)s quanto à importância de se respeitar o direito de cada um(a) de seguir sua vida com autonomia e responsabilidade.

Joacles Costa: Qual sua perspectiva sobre o estado da cultura e literatura portuguesa, em geral? Quais são suas experiências, neste sentido?
Paulo Sodré: Contornarei a amplitude da pergunta, expondo brevemente meu percurso pelos estudos portugueses. Uma vez que atuo como docente e pesquisador da Ufes desde 1987, voltado para os estudos portugueses, optei por me dedicar, de 1992 a 2019, ao estudo da literatura portuguesa produzida nos séculos XIII e XIV. Desenvolvi o Mestrado (uma abordagem crítico-literária das cantigas de Nuno Fernandes Torneol, trovador do século XIII), o Doutorado (uma abordagem histórico-social da mulher nas cantigas femininas peninsulares) e o estágio de pós-doutorado (uma abordagem da produção satírica e sua relação com a jurisprudência da época) em universidades paulistas (USP e Unicamp), onde me dediquei ao estudo das cantigas trovadorescas, num momento quando havia ainda poucos estudiosos brasileiros investigando o tema. Embora eu tenha publicado estudos sobre outros momentos da produção literária de Portugal, como Luís de Camões, do século XVI, Bocage, do século XVIII, ou Almeida Faria e Nuno Júdice, do século XX, e ainda que eu tenha pesquisado sobre Gil Vicente e António Ferreira, Violante do Céu e Francisco Manuel de Melo, Correia Garção e a Marquesa de Alorna, Almeida Garrett e António Nobre, Florbela Espanca e Fernando Pessoa, Miguel Torga e Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e Lídia Jorge, José Saramago e Maria Teresa Horta, Lobo Antunes e Sophia de Mello Andresen, Luís Miguel Nava e João Miguel Henriques, entre outro(a)s, minha atenção como pesquisador acabou por se voltar intensamente para os cantares dos trovadores.

Joacles Costa: Um escritor – um poeta, um artista – é sempre um exilado interno?
Paulo Sodré: O que eu percebo, especialmente no(a)s poetas, músico(a)s e pintore(a)s, com quem me parece se evidencia mais essa impressão de exílio interno provisório, é que o degredo ocorre justamente porque ele(a)s vivenciam (experimentam pelo pensamento, pelo sentimento e pelo movimento) excessivamente o mundo. Assim, esse tumulto de sensações e reflexões só pode ser traduzido esteticamente quando ess(a)e artista se afasta, recolhe-se, ilha-se para acalmar as impressões, organizar o pensamento e produzir sua linguagem. Não se trata, portanto, de um(a) “exilado(a) interno(a)”, mas de cidadã(o) que, diante do redemoinho da vida, precisa de um canto para perceber melhor o que se passa consigo e com o mundo que observa e tenta absorver artisticamente.

Joacles Costa: A poesia deve amplificar vozes que por séculos foram forçadas a se calar?
Paulo Sodré: Sem dúvida a arte tem essa chance de dar visibilidade e veicular o que ou quem o senso comum não tem condições, devido à acomodação do pensamento e da sensibilidade, de discernir e respeitar. A história e a historiografia demonstram, com seus inúmeros exemplos antigos e atuais de ignorância, intolerância, ganância e obtusidade, como a arte (e as ciências), em suas diversas expressões, pode desconcertar e deslocar o ponto de vista assentado e ensejar a possibilidade de reflexão e de mudança das pessoas e das comunidades em vários níveis de discernimento.

Joacles Costa:  Em 2008, na Feira do livro de Frankfurt, os editores tiveram uma visão catastrofista, afirmando que em 10 anos não haveria livros em papel; o que não sucedeu. Qual é a sua relação com o digital, é possível essa convivência com o livro tradicional?
Paulo Sodré: Aos 58 anos de idade, e convivendo com uma pluralidade imensa de pessoas e sensibilidades na Ufes, que me desafiam constantemente a pensar e repensar minhas escolhas, posso afirmar que convivo bem com o livro e com o e-book. São insubstituíveis a textura do papel pólen, o cheiro da tinta no impresso, o ruído do virar a página e deparar outros parágrafos e estrofes (algumas plataformas digitais, como a Issuu, reproduzem esse pequeno prazer sonoro), o ritual de retirar o volume, recoloca-lo na estante e reconhecer depois sua lombada etc. Do mesmo modo, não posso subestimar a praticidade de ter em um aparelho leve e cômodo centenas de livros que posso levar para qualquer lugar, sem sobrecarregar músculos e malas. Creio que cada suporte corresponde bem à expectativa de um certo contexto e de um modo de vida distintos, alternativos e alternantes. Gosto da ideia de tocar, pegar e folhear um livro na estante, quando estou em casa, na livraria ou na biblioteca, do mesmo modo que me apraz ativar um aparelho e acessar nele um e-book quando estou fora daqueles espaços ou em trânsito. Complementam-se e agradam-me esses diferentes livros.

Joacles Costa: Para você, a escrita é aquilo que ajuda a fazer um grande autor ou é aquilo que acompanha o nascimento desse profissional?
Paulo Sodré: Não me parecem excludentes essas afirmações: em que pese o fato de o marketing conseguir projetar celebridades literárias sem uma escrita artística consistente, a escrita é uma habilidade que se cultiva, aprimora-se e apruma-se ao longo da produção de alguém, tornando-o(a) um(a) artista. Essa escrita transpirada (muito mais que inspirada) alça o(a) produtor(a) de texto a escritor(a), acompanhando e propiciando o “nascimento” profissional desse sujeito. Em algumas pessoas a disposição para a escritura acontece bem cedo, levando-as a se dedicarem de imediato a esse desejo; outras a percebem aos poucos, admitindo-a posteriormente, às vezes na maturidade. Seja como for, a escrita literária fundamenta um e outro processo: o de transformar alguém num(a) grande autor(a) e o de acompanhar esse(a) autor(a) desde sua decisão de investir na escrita criativa.

Joacles Costa: O principal papel de um escritor é estar somente ligado à publicação de livros?
Paulo Sodré: O termo “publicação”, na verdade, implica um conjunto de ações que vão desde a produção de um manuscrito do(a) escritor(a) e sua vontade de divulga-lo para um público por meio de uma edição até o lançamento do livro, entrevistas e palestras sobre essa produção. Isso envolve uma sociabilidade que retira do(a) escritor(a) a ideia de que basta apenas colocar seu trabalho à disposição das pessoas. É necessário, se ele(a) pretende um alcance razoável de leitore(a)s, ir muito além da edição. Dependendo, claro, de sua posição política (no sentido de relação consciente com/entre cidadãos e cidadãs), o tornar seu livro “público” adquire dimensões ainda maiores, e mais fecundas, junto a sua comunidade de leitores.

Joacles Costa: Quais os projetos você tem para desenvolver?
Paulo Sodré: Estou em um momento de transição profissional, uma vez que minha aposentadoria como docente poderá ocorrer em poucos anos. Se tudo se desenvolver bem, os projetos incluem narrativas e desenhos para crianças. Algumas minutas de textos estão me aguardando para finalização, assim como as ilustrações. Mas, por ora, o projeto imediato é viver bem cada dia e adaptar-me ao ensino remoto temporário emergencial na Ufes... O triste período Covid-19 tem nos alertado para a presunção de planos a longo prazo.

Seu livro mais recente: Uma leitura na chuva


 
Narrado em terceira pessoa, o romance Uma abelha na chuva é estruturado em mise en abyme, isto é, narrativa dentro de narrativa, uma vez que "Hipomênia e os cães" (alusivo a A demanda do santo graal, novela anônima do século XIII, e ao romance contemporâneo Corações migrantes, de Maryse Condé), "A pedra de Carlos" (alusivo ao Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e ao "Singularidades de uma rapariga loura", de Eça de Queirós) e "Um chorinho em sol menor" (alusivo ao Tenda dos milagres, de Jorge Amado, e às Cartas portuguesas, de Gabriel-Joseph de Lavergne, visconde de Guilleragues) são os pequenos romances que o protagonista Eduardo ensaia e hesita em escrever, enquanto se debate, ainda, entre o amor por dois homens, Maurício e Alessandro. O livro procura ainda esboçar duas discussões antigas e sempre renovadas: por um lado, o dilema do escritor Eduardo diante da (in)utilidade de seu trabalho artístico com as palavras e a representação do mundo ao seu redor. Por outro, o embaraço de Alessandro, personagem-leitor diante das representações ficcionais, sobretudo quando ele serve de referência a essas representações.

Autor: Paulo Sodré
Ano: 2018
Assunto: A tensão do escritor diante da produção de um romance e a reação de um leitor diante de uma obra que o toma como personagem.
Páginas: 139 pgs.
Preço: R$ 20,00 (na loja virtual da Editora Cândida)
Editora: Cândida

Leitura Em Dia
 
O que está lendo no momento? 
Aviso aos navegantes, de Salsa Brezinski, e Lágrima fora do lugar, de Suely Bispo. E uma instigante narrativa inédita de Adrianna Menegueli, com lançamento para breve em Vitória.

Revisão de texto: Max Maciel

O artigo publicado é de inteira responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam as idéias ou opiniões do site EMDIAES.
 
 
 

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